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Danilo Reis: As eleições municipais de União, uma odisseia (Parte 1)

Danilo Reis: As eleições municipais de União, uma odisseia (Parte 1)


A União unida e desunida pelas eleições

Escrito por Danilo José Reis 

Santinhos de candidatos 2020 (Foto Danilo José Reis)

 

Falar de eleições municipais aqui, é rememorar uma longeva aptidão política que o unionense tem, que veio sendo adquirida desde o início dos processos eleitorais locais, surgidos a partir da instalação da Câmara Municipal, em 1854. Nesses 167 anos, vivenciamos inúmeros processos eleitorais, sempre marcados por muitas rivalidades e acirramentos. De 1854 para cá, contabilizamos uma infinidade deles, ocorridos em vários contextos político-eleitorais distintos. Boicotes, surpresas, tentativas de fraudes, impugnações, suspensões e muitas conturbações fizeram parte desse recorte histórico.

Durante o período monárquico, na qual votávamos nos representantes da Câmara de vereadores e nos juízes de paz, o voto era censitário e restrito para poucos. Esses pleitos, que tinham como principal objetivo o comando da Câmara Municipal, marcaram as disputas entre liberais e conservadores, as primeiras agremiações que deram origem aos agrupamentos políticos locais. Nesse estágio político-eleitoral, tivemos o predomínio de figuras como João do Rego Monteiro (barão de Gurguéia), Benedito Rego, Fernando Lobão Veras, Clemente Fortes, Francisco Barbosa e padre Simpliciano (a “velha guarda” da política local). Uma das eleições mais memoráveis desse período foi a de 1860, marcada pelo jogo de interesses individuais entre membros de um mesmo partido. Nesse pleito, o conservador João do Rego Monteiro tentou boicotá-lo, cercando a Igreja Matriz com a força policial, a fim de interromper a votação e “prejudicar” o correligionário Fernando Lobão Veras. O episódio que quase terminava em sangue, ficou denominado pela história de o Incidente das Baionetas. Ocorrências dessa natureza não foram tão incomuns. Ainda nesse lapso, ainda assistimos atos de violência e até de sequestro de eleitores.

Quando a monarquia desabou, em 1889, o processo eleitoral e político-administrativo se modificou. A desejosa Câmara, deu lugar ao Conselho Municipal, criado em paralelo com a Intendência. Tínhamos então disputas para o “legislativo” e “executivo”. Protagonizaram esse novo cenário politico, correspondente a República Velha (1889-1930), figuras como Benedito Rego Filho, Sesostres Correia, Augusto Daniel, Agnelo Sampaio, major Santana, Antônio Medeiros de Melo, padre Álvaro José e Segisnando Alencar (a “segunda geração” da política unionense). Foi um estágio de eleições acirradas e cheias de reviravoltas. O segundo pleito desse novo contexto, realizada em 1896, foi a mais emblemática de todas. Realizada em outubro do referente ano, ela foi organizada por um Conselho “provisório”, nomeado após o Conselho Municipal e o intendente, eleitos em 1892, serem suspenso pelo governo do Estado, quatro meses antes das eleições, por suspeitas de corrupção. Os novos eleitos, governaram por poucos meses, pois em meados de 1897, os “suspensos” conseguiram uma liminar e retornaram aos seus cargos, permanecendo, por manobras da política, até às eleições de 1900. Foi, como se fala na linguagem de hoje, um verdadeiro “labacé”.

Com a chegada da Era Vargas (1930-1945) não assistimos processos eleitos, exceto uma acirradíssima eleição para “prefeito” ocorrida em 1935. Estiveram nessa disputa, Joca Motta (genro de Filinto Rego) e Segisnando Alencar, duas das mais importantes figuras políticas do momento. De acordo com a tradição oral, ela foi disputadíssima, sendo Segisnando o vencedor, pela contagem mínima de um voto. Apesar da inexistência de partidos oficiais e de disputas eleitorais municipais, dominou o cenário político o coronel Filinto Rego, que, por incrível que pareça, tornou-se a maior liderança varguista no município, sobretudo durante a ditadura civil do Estado Novo (1937-45).

Com o fim da ditadura Vargas remontou-se um novo cenário, e com ele a chegada de novas lideranças. A partir de 1945, dominaram o cenário político a UDN (opositores a Getúlio) e o PSD (apoiadores), composto por ascendentes lideranças políticas locais (diga-se a “terceira geração”). Foram protagonistas desse período, figuras como Francisco Narciso da Rocha, Antônio Medeiros Filho, Tasso Fortes do Rego, Eudóxio Melo, Arão Lobão Veras, o ascendente Carlos Monteiro (todos udenistas), Joaquim P. Barros, Protásio Oliveira, Valfredo Costa, Eulálio Costa e Manuel Boavista da Cunha (ambos pessedistas).

Entre 1945 a 1950 vivemos o período mais tenso da nossa história política, marcada por rodízios na prefeitura e por perseguições e violência cometidas mutuamente entre os adversários. A primeira eleição Municipal desse contexto ocorreu em 1948, marcada por muita tensão, polêmicas e denuncias de fraudes. Depois da anulação de urnas e da não realização de uma disputa suplementar, requerida pelo PSD, ela deu a vitória, polêmica, ao udenista Francisco Narciso, que deu início ao longevo domínio do grupo UDN/ARENA a frente da Prefeitura. Curiosamente, nas eleições de 1954, vencidas por Carlos Monteiro (a primeira de três), testemunhamos a estreia das mulheres nas disputas eleitorais locais. Nesse pleito, concorreram a uma vaga na Câmara, dona Ordantina Rocha, pela UDN, e Julieta Lobão, pelo PSD. No entanto, somente em 1970 foi que tivermos a oportunidade de ver uma mulher chegar a Câmara, ela foi a enfermeira Neném Prado, do MDB.

No entanto, em 1958, Gervásio Costa Filho (UDN), estreante nas disputas, venceu sua primeira eleição, derrotando na ocasião Eudóxio Melo - antigo correligionário, forte candidato apoiado pelo governador José Gayoso. Foi uma das eleições mais tumultuadas da nossa história, marcada pela tentativa de suspenção por parte dos derrotados. O PSD, não reconhecendo a derrota, conseguiu a impugnação de algumas urnas e a realização de uma eleição suplementar. Elas ocorreram e confirmaram a vitória da UDN. Denominada de A batalha eleitoral de União, ela consolidou o domínio político dos udenistas no município. Eleições com esse “desenho” só foi assistida em 1972,  quando o mesmo Gervásio, agora favorito, apoiado pelos chefes da ARENA (antiga UDN) Carlos Monteiro e Bona Medeiros, foi surpreendido pela vitória de Osvaldo Melo, do MDB, que conseguiu derrubar a hegemonia da antiga UDN na prefeitura. Filho do líder Eudóxio Melo, ele teve o apoio majoritário somente do pai, do deputado emedebista Chico Figueiredo e de sua base aliada no município. Foi uma disputa “voto a voto”, com viradas e reviravoltas, que no final, confirmou a vitória apertada contra a “situação”. Porém, assim como em 58, ela foi contestada pelos perdedores. A ARENA denunciou o cartório eleitoral local, acusando-o de fraude. Por outro lado, o MDB denunciava a utilização de cartórios “fantasmas” no Maranhão por parte dos perdedores. Foi um grande escarcéu! Apesar das contestações, Osvaldo Melo assumiu em 1973, junto ao vice, o comerciante Francisco Oliveira. No entanto, 182 dias depois, abdicou do cargo.

As dispostas continuaram acirradas, sendo protagonizadas pelos mesmos grupos políticos dominantes. Eudoxio, Osvaldo, Bona, Carlos Monteiro, passaram a dividiram o protagonismo com novos herdeiros políticos e por novas forças partidárias que nasciam. As eleições, apesar de mais brandas, continuou na “veia” do unionense.

A “odisseia” continua...

DANILO JOSÉ REIS é professor e pesquisador do grupo de pesquisa Piquete Explorador do Estanhado.